A Lua (do coração) em câncer

Ele me escreveu.
Voltei dez anos no tempo pra ser mais exata.
Numa fase onde a esperança se alimentava de farelos.
Quanta coisa aconteceu de lá pra cá.
Parei pra respirar.
Me acostumei a não pensar.
A deixar solto no passado.
A visita dele veio sorrateira.
Incômoda.
Desrespeitando todas as barreiras já impostas.
Será que vivi sozinha o fim?
Ele não estava lá?
Ele correu. Fugido. Covarde.
Se disse incapaz de dar conta.
Bateu a porta.
E eu acatei a sua decisão.
Não foi fácil.
Nunca é.
Era ciranda.
Ele ia e vinha.
Se enroscava com uma aqui e ali no meio fio.
Provocava a minha razão.
Nunca se deu conta do real valor que tinha – ao menos pra mim!
Ele sabotava as tentativas.
Não se empenhava em depois.
Tinha fuga pronta. E isso massacrava meu coração.
Ele nunca se viu do outro lado.
Nunca pesou suas ações.
Enxergava o mais confortável pra ele.
E eu me virava do jeito que dava.
Na mão que o expulsava também deixava uma brecha pra ele se acomodar quando voltasse – me acostumei a vê-lo voltar.
Indeciso. Inseguro. Incerto.
Nada casava.
Não havia encaixe.
Forçava o molde.
Mas coração apaixonado enxerga algo com clareza?
Jamais.
Se nutre dessas expectativas adolescentes que dão aquele frescor de nada ser impossível ou improvável.
A insistência se alimenta com prontidão.
Os nãos e os tropeços nutrem a tentativa de arriscar de novo e de novo.
Ele me escreveu sem medir o espaço.
Sem considerar os danos.
Duvido que tenha cogitado o tamanho do estrago.
Ele só visa a sua necessidade mórbida de cutucar uma ferida que batalhei anos pra costurar.
Teste de paciência?
Ainda não sei.
Mas confesso que é engraçada essa mania de achar que tudo pode ser recuperado.
Sou feita de tantas outras escolhas depois desse desengano.
Sou tão mais pé no chão.
Caramba, ele não aprendeu nada?
Tem certeza?
Não serei eu a mostrar o preço que a gente paga por ser inconstante.

Marcely Pieroni Gastaldi

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(Quase) passado

Segunda-feira.

Chove sem parar.

O frio chegou mais cedo.

Revi nosso histórico.

(Re)li toda a nossa trajetória.

Pesei os prós e contras.

Medi novamente o nosso amor.

Se é que isso é amor.

Soa tão tóxico.

Tão pesado.

Tão cheio de vontades engasgadas.

Não desenrola.

Tem sempre um porquê atravessado.

Um desencontro mascarado de desculpa pronta.

Não é pra ser. Será?

Cadê as forças pra admitir que já perdemos tempo demais nos deslocando no espaço do outro.

Eu estava quieta. Segura.

Depois que você burlou o meu silêncio tudo respinga saudade.

Tudo me lembra você.

Tudo me leva até nós.

E parece que você se recolheu outra vez.

Que saco.

Sempre a mesma história.

Cutuca a casquinha da ferida e não fica pra remediar.

Decida-se.

Meu peito não dá mais conta.

E nas voltas que a vida deu, escolhi seguir meu coração.

Mas não me obrigo a ficar onde a covardia se aloja.

Marcely Pieroni Gastaldi

Descombinando você do coração.

Tenho me questionado se o tempo há de perdoar a ausência.
Se vou findar sem preencher as horas de carência com algum encontro combinado de última hora.
Tudo para te deslocar do foco.
Quero que você desapareça.
Que ocupe de novo as memórias esquecidas do que poderia ter sido e não foi.
Mas você não ajuda.
Judia.
Maltrata.
Procura.
Pede calma.
Está vivendo o ápice de suas loucuras e me quer no meio delas?
Não vê que machuca?
Que me esfola inteira?
E eu deixo.
Porque fico pensando nas tantas vezes que te pedi pra ir embora e você não foi.
Mas eu fui.
Eu precisava cortar o ciclo.
Precisava esvaziar o peito de você.
Dessas esperanças espremidas de te ter por perto de novo.
Você voltou sem juízo.
Não teve cuidado.
Abriu a mala de mão e jogou todas as memórias na mesa.
Me fez voltar atrás.
Coração balançou.
E eu tentei não dar espaço.
Aprendi que com o tempo tudo se acerta e se acalma.
Mas você é furacão.
Não me deixa de pé.
Sempre me puxa pra baixo.
Sempre me pede pra esperar enquanto tenta retomar o fôlego.
Mas não dá brecha.
Não dá condições pra eu acreditar que de fato será diferente.
Você me pede sua mas não decide.
Não se basta.
Não põe as cartas na mesa.
Se engana. E tenha me iludir.
Meu coração não é seu picadeiro.
Meu amor não é um capricho.

Marcely Pieroni Gastaldi

Agosto ainda clama (re) começo.

Eu não esqueço.

Passam os dias e os anos.

Caramba.

Passa depressa.

Quase voando.

E me dou conta que o pior já passou.

Se é que teve um lado tão ruim assim.

Foi tão sorrateiro.

Tão cheio de cores e sabores.

Foi meu.

Não houve nosso.

Rompemos.

Gritamos silenciosamente um com o outro.

E cá estamos.

Cada um do seu lado.

Vivendo o que queríamos de fato.

Ainda sobra respeito.

Que bom.

Olho com ternura essas páginas bonitas que por dias pareceram totalmente desconexas.

A gente muda.

Enxerga com clareza o que antes não tinha nitidez.

Mas não deixa de encaixar.

Faz parte.

Dá liga.

Ainda é você.

E ainda sou eu.

Mudados? Claro.

Mais seguros também.

Suponho que tenha valido a pena pra você.

Porque pra mim continua valendo.

Tive meus momentos de rouquidão.

De saudade entalada.

Desespero por não mais me (re)conhecer.

Mas passou.

Aprendi tanto com os calafrios que me percorreram a pele pela dúvida.

E valeu cada segundo de não que aprendi a dizer.

Agosto ainda me remete um tanto de você.

Coisa leve de sentir.

E vale a memória.

Que esteja bem.

E feliz.

Marcely Pieroni Gastaldi

Sempre volto

Ando sumida.
Tanta coisa acontecendo.
Tantas mudanças me preenchendo.
É um pouco trabalhoso, mas devo adiantar que vale a pena o esforço.
Pausar pra se ouvir.
Pra se (re)descobrir.
Inverter os papéis.
Ser a vilã ao invés de mocinha.
Se policiar e se por de castigo.
Abrandar o peito enquanto sente suas urgências queimarem a pele.
Ando sumida.
Porém mais paciente que nunca.
Ando contradizendo algumas teorias que havia escrito também.
O que antes soava encontro hoje suspira um tanto de espera.
Saber a hora certa de se caber pra não extravasar demais no molde.
Considerar que nem tudo se alinha na órbita desejada é um bônus.
Sofre menos. Incide menos expectativas também.
Ando sumida.
Com uma preguiça danada de gente oca.
Esgotada de vazios nada simbólicos.
Onde é que o amor foi parar?
Não digo de conjunto.
Nada par.
O ímpar? Cadê?
Você não se aceita? Não se assume? Não se gosta o bastante pra apostar no que lhe faz bem?
Que desespero maroto é esse?
Tapar o sol com a peneira resolve o que?
Ando sumida. Em paz.
Refeita.
E feliz da vida. Aliás.

Marcely Pieroni Gastaldi

Segunda chance pra amar você 

Acordei tem quinze minutos. Olho ao redor pra tomar consciência de onde estou e alcancei o celular. Calma! Não estou de ressaca. 

Eu tô ótima. Diga-se de passagem. Mas estou totalmente fora da minha zona de conforto e isso por si só rouba a razão de funcionar. 

Estamos no outono. Contemplo o subir e descer do peito desnudo que me embala logo ao lado. 

Suas mãos repousam na minha cintura. Sereno. 

Nem parece o cara sistemático que compra briga a cada dois segundos quando contrariado. 

Às vezes eu me esqueço do quão delicioso é estar envolvido por seus (a) braços. 

Combinamos de levantar cedo, mas o cansaço o venceu.

Não pretendia despertá-lo tão já. 

Estamos tentando estabelecer um novo ritmo pra nós. Seguimos brigando por meses a fio. 

Pode-se dizer que a lua de mel passou. 

Tentamos manter o foco, mas a rotina maçante nos engole. 

E tudo que um virginiano não admite é que está perdendo o controle. 

Temos uma história. 

Claro que temos. 

Durante muito tempo tive certeza que manhãs como essa só aconteciam em filmes adocicados. Até conhecê-lo. 

Parceria de vida. Incentivador de sonhos e ambições. E um tanto quanto controlador. 

Urgh! 

Estamos comemorando mais um dia dois. Juramos desconectar da loucura e viver um refúgio de nós. 

Olhando ele dormir aqui ao lado percebo o tanto que a gente mudou. Éramos tão inseguros no começo. 

Tão incertos. Hoje percebo que não há no mundo lugar melhor que aqui. Amontoada em suas vontades percebo o amor correr pela forma carinhosa com a qual ele me sustenta no olhar, a mania de tentar me super proteger. 

O alarme soa. Ele desperta apressado acreditando que ainda durmo. 

“Bom dia dorminhoco”. “Bom dia amor”. Responde sorrindo enquanto me ajeita de frente pra ele. A barba por fazer roçando de leve a bochecha, o olhar delicado, as mãos me puxando pra perto, a preguiça transpirando os poros do corpo. 

Sei que o café vai demorar. 

Um beijo roubado e o dia ali fora congela. 

Qual era mesmo o roteiro que iríamos seguir!?

Ainda há espaço pra amar (você)!

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A cama está bagunçada. Sinto suas pernas pesarem sobre as minhas. Minha cabeça descansa sobre o seu peito. Nossos dedos entrelaçados me dão aquela certeza gostosa de que tudo se encaixa quando tem de ser. Não quero pensar no que vamos fazer mais tarde. Não quero escrever roteiros mirabolantes nem ensaiar discursos bonitos para te impressionar.

Quero ficar aqui. Enroscada em você. Sentindo a respiração se acalmar enquanto suas mãos afagam os meus cabelos e me embalam a paz. Pensei em me beliscar pra ter certeza que não estou sonhando acordada. Não sei, me acostumei tanto a ter você distante que agora, podendo alcançar o seu rosto e bagunçar a barba por fazer, fico com receio de despertar no susto.

Tanta coisa pra dizer. Tantos sonhos para desempoeirar. Será que o descompasso que me enlouquece também tem morado em você? Consegue supor onde vamos parar ou está como eu, deixando a vida simplesmente se guiar? Eu não quero prometer nada. Não me sinto a vontade cobrando soluções imediatas. Quero apenas ter tempo pra nós. Pra mim e pra você. No mesmo espaço e na mesma sincronia. Quero ser refúgio de seus anseios. Resposta pra todas as suas dúvidas. Ser a calma que consola suas inquietações. Quero estar aqui de manhã ou no fim da tarde ou quem sabe no meio do dia, pra caber num abraço apertado, desses que roubam o eixo e nos dão a garantia de que tudo pode sim, melhorar.

Eu quero tanto fazer valer as conjugações passadas que te fiz, aquelas bobagens iluminadas de sorrisos e vontades ingênuas – que hoje dão solidez ao sentimento que move o meu peito em direção a você. Ainda é você que repercute a letra já conhecida, que alivia os descontentamentos e alcança o mais bonito da minha alma.

Ainda há espaço para o amor. Pra amar. E se não for demais, há espaço (e muita vontade) de amar você. Com defeitos e deslizes, ausência de tempo e perturbações. Amar cada pedacinho de você. Cada centímetro de suas limitações e todas as suas aflições. Amar o todo como fiz desde o comecinho, quando seu olhar esbarrou no meu e algo se desequilibrou aqui dentro. Passam-se verões e invernos, mas a sensação ainda é familiar, é amar você não é tão insano ou indecente como parecia.

Eu quero você. Em cada parte da minha vida, em cada vírgula que escrever na minha história.Quero seu rosto iluminando minhas manhãs e seus braços me salvando todos os dias da solidão cortante. Fica?

 

Marcely Pieroni Gastaldi

Desfazendo-se de suas omissões

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Você bem sabe que está tudo bagunçado. Algumas atitudes se tomadas fariam um bem danado para você, mas não dá. Ainda falta coragem de sair por aí dizendo os ‘NÃOS’ em voz alta. Sobra medo dentro do bolso e enquanto isso, a vida vai seguindo apertada. O peso nos ombros é notável, o mau humor matinal bate cartão. Tem dias que tudo incomoda: desde o despertador às cinco horas da manhã até o trânsito insuportável na volta para casa.

No meio tempo você vai encontrando maneiras de anestesiar as quedas e vai fingindo como se tudo estivesse bem. E esse é o grande problema. Fingir que não está sufocada, que vez em quando não sente vontade de mandar tudo pelos ares. Admitir que assim como eu e como o seu Zé ali do açougue você também tem crises existenciais e precisa de tempo e espaço.

Não é vestir a capa invisível e sair mundo a fora salvando os fracos e dependentes. É admitir que precisa digerir tudo que tem interrompido sua paz e dar o braço a torcer. Você existe e se aborrece também. Não é privilegiado. Também amarga desencontros e (sobre)vive alguns fiascos. Você também bate o dedo mendinho no sofá – lembrou a dor ?- se você não der um basta vai sentir a mesma sensação todos os dias até cansar e jogar a toalha. Vai se arrepender dos passeios que não fez, dos livros que não leu e dos conselhos que não ouviu (ainda existem coisas boas para se compartilhar). Vai sentir saudade de tudo que não viveu por causa da pressa. Do receio de se impor. De dizer que também precisava de mais cinco minutos deitada na cama sem a menor pretensão de enfrentar o mundo.

Assumir as próprias fraquezas é um ato heroico. É olhar a ferida e encontrar formas de cicatriza-la. Não dá para tapar o sol com a peneira. É preciso sentir tudo latejar para superar. Não adianta vestir super poderes imaginários e agir no piloto automático como se nada o machucasse, pois quem foge uma vez, foge sempre e nesse caso não evolui, não aprende, não faz dos erros um impulso até a maturidade chegar.

Admitir que vai mal, que sente fadiga, que se enjoa com o pessimismo alheio é libertador. Seja a fatia que ainda se importa em sair do lugar e fazer algo por si e não se acomode a ver a vida passar nos escanteios da preguiça ou da descrença. Se você não se dispõe nada muda. Temos o péssimo hábito de clamar por transformações e esquecemos que além de doloridas elas também dependem única e exclusivamente da gente mesmo. A mudança vem de dentro pra fora e começa em casa, nunca na rua.

Sendo assim, se der vontade de gritar, grite! Se quiser sair, saia. Se não estiver com vontade não vá! O que não pode é agradar todo mundo desagradando a si mesmo. Se você não respeitar suas próprias vontades, ninguém mais o fará. Pensa nisso, antes de culpar Deus e todo mundo por suas inúmeras omissões.

Marcely Pieroni Gastaldi

 

 

 

Se você não tentar, o medo te engole

 

 

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Eu tive medo de sair do lugar. De ver tudo desmoronar. Tive medo de não ter controle – como se de fato o tivesse em algum momento. Tive medo de não saber para onde ir ou como agir. Medo de improvisar, de não seguir os roteiros e o pior, não saber o que esperar ali na frente.

O medo por si só desenrola uma série de acontecimentos fantasiosos que só ocorrem na nossa cabeça. Tudo dá errado. Nada se conserta, nem se ajeita. Você só lida com problemas e quase não esbarra numa solução. O medo traz a tona aquela sensação vazia de que não importa o que você faça, nada vai ser recompensado. Um pedido silencioso de vida morna e pacata. E isso dói mais.

Quando você se fecha e deixa de tentar. Deixa de aventurar. De se vislumbrar e desafiar. Deixa de criar expectativas saudáveis que te fazem deslocar no tempo e na vida. Deixa de ansiar o próximo passo porque sabe que tem feito de tudo para se realizar.

Quando você encara o medo e coloca as mãos na massa o impossível não é tão inalcançável assim. O leque de possibilidades se abre e você descobre que pode sim, dar conta de tudo que vem pela frente. Descobre que existe um ritmo para isso e não é de todo mal assim. Acredito que esteja ligado ao fato de você aprender a se respeitar e de também não forçar tanto.

Vencer o mede pede espaço e renúncia. Pede também uma dose sem vergonha de coragem. Você consegue? Fechar os olhos e não se importunar com desculpas fajutas a fim de desistir de seguir o caminho mais longo ou o mais torto? Consegue se desprender de tudo que acha certo e começar do zero? Sem nenhuma certeza ou convicção requentada? Consegue deixar a vida florir na própria condição?

 

Eu sei. O medo estaciona e faz a gente visualizar um milhão de obstáculos. Faz a gente também encobrir os olhos para tudo de bom que nos acontece dia após dia. Faz tudo acelerar. Antecipa sofrimentos sem que as medidas de fato tenham sido tomadas. E isso faz tanto mal. Sei que é um exercício diário e que lidar com ele traz equilíbrio renovado. Mas também sei que vez em quando é só ele quem toma as rédeas da nossa vida e nos deixa de co-piloto de nós mesmos.

Por isso, se puder, reaja. Não estou dizendo para você sair por aí correndo riscos desnecessários.Não quero que rompa barreiras nem banque o super herói se ferindo emocionalmente – há limites que devem ser respeitados – mas desejo que se liberte de amarras que já foram vencidas. Que se dê o direito de olhar para fora do casulo. Que resmungue menos e se salve mais. Tente. É preciso não ser vítima de si mesmo.

 

Marcely Pieroni Gastaldi

 

Picotando memórias 

Lembro de ter ouvido alguém mencionar um tempo depois que você escolheu um dia qualquer pra sentar na beirada da cama e picotar miudinho todas as cartas que te escrevi ao longo do tempo em que juramos amor baixinho enquanto a vida se escorria ali fora. 

O coração bateu devagar por alguns segundos. Respirei fundo e desejei que você tivesse tido mais sorte que eu. 

Eu mesma fiz a mesma coisa. Reuni as memórias numa caixa enorme e fui picotando em pedacinho todas as frases bonitinhas que hoje não refletiam mais a nossa realidade. Não consigo dizer se estava brava ou ferida, mas sei que estava decidida a te fazer menor. 

E não tive tanta sorte assim. Os pedacinhos de papel espalhados ao redor de mim não diminuíam o sentimento. Não apagavam as memórias frescas que o coração ainda guardava. Mesmo que esmagadinhos, havia o seu perfume decorado na memória olfativa, e seu sorriso era quase um estrondo quando o peito sangrava de repente. 

Não tive sorte. Quis muito te transformar em nada. Fazer dos anos a fio um descuido do tempo. Um passeio sem graça. Não sei. Qualquer coisa que te fizesse caber num espacinho do armário e não sobrecarregasse tanto os meus ombros. Mas falhei. Ainda que tivesse força pra te expulsar aos poucos, não tive controle sobre o meu coração. 

E me pergunto? Será que você teve mais sorte que eu? Ou também aprendeu a duras penas que o tempo alivia o que ficou? Que mesmo que a gente se dê ao trabalho de rasgar provas concretas ficamos com aquelas marcas no corpo? Tatuagens a sangue frio que os resquícios de amor nos deixam. 

Será que você teve mais sorte? Ou também se equivocou achando que pra estar bem é preciso se desvencilhar de tudo? 
Na época eu sorri. E desconversei. Mas a notícia veio certeira. Soco na boca do estômago. Embrulhou meus sentidos e me fez perceber que às vezes a gente só precisa calar e torcer pro outro ir. O quanto antes melhor. Porque o recomeço não é uma competição. E sim um achado que a gente mesmo constrói.
Marcely Pieroni Gastaldi